Por Roberto Aguiar
Na escola Ângelo Moretti aprendi com a amada professora Cotinha, na minha primeira aula de história, na 5ª série do ensino fundamental, em 1991, que é necessário compreender o passado para melhor compreender o presente. Uma pena que muitos filhos da minha cidade, incluindo seus governantes [velhos e atuais] faltaram a essa aula.
A nossa pequena Ourém já foi grande no passado. Localizada no nordeste paraense, elo entre as capitanias do Grão Pará e Maranhão, carregou em seu rio um longo período da história da formação do Estado do Pará. Um pedaço de tempo pouco conhecido pelos seus cidadãos. Pouca coisa escrita, registros apagados do espaço. Ruas alargadas, casarões derrubados, documentos oficiais não preservados.
Quem passeia pela nossa cidade não encontra vestígios da nossa história. Quem por ela passa, pensa que é uma cidade nova. Sua paisagem não revela, não permite perceber a nossa real construção no tempo e no espaço. Assim, podemos chegar à conclusão que a forma como nossa cidade foi conduzida para um futuro que não chega, acabou levando a desconstrução do nosso passado. Quem não é capaz de preservar sua história, não é capaz de garantir nenhum futuro.
Em nome de um falso progresso, assistimos, sem reclamar, prefeitos construir praias artificiais às margens do nosso rio. Hoje, ele agoniza lutando para garantir sua sobrevivência. A areia, que outrora embelezou a margem do rio, tomou o lugar das águas. O Rio Guamá está raquítico, fraco, na fila da UTI.
Prédios históricos foram derrubados para construir prédios novos ou praça, como ocorreu com o antigo Mercado Municipal. Casarões que deveriam ser preservados e tombados como patrimônio cultural, foram de fatos “tombados”, em outro sentido da palavra, caíram, foram ao chão, por falta de valorização e preservação da história e da cultura ouremense.
O que assistimos na atualidade é um filme que começou ser filmado em preto e branco, passou pela era da descoberta da imagem colorida, chegou à imagem digital, mas nada mudou. O cinema é mudo e a imagem cinza prevalece.
Os prefeitos [diretores do cinema] insistem em seguir o mesmo roteiro. Descaso com a educação, com a saúde, com o saneamento, com a cidade e seus moradores. O rio segue seu leito de morte. O latifúndio e as seixeiras desmatam nossa floresta acelerando a morte do rio. A paisagem artificial predomina e apaga de vez a paisagem histórica.
O cinema funciona porque a plateia paga o ingresso. E paga caro, sem direito à pipoca e guaraná. Precisamos mais do que mudar o diretor do cinema e o roteiro. Precisamos na verdade construir um outro cinema. Não adianta querer colorir o filme se a história segue o mesmo rumo.
Os erros do presente são reflexos de um passado apagado no tempo e no espaço. Logo, apagado das mentes e dos corações dos ouremense. A apatia, o silencio predominante e o lance do que “está pior não fica” são frutos da falta de ligação com a cidade, com a história, com a nossa raiz.
